A Janela da miúda.

Podem tirar a janela da miúda mas nunca vão tirar a miúda da janela. Há coisas que embora não nos pertençam serão sempre nossas. Porque mostram o nosso ponto de vista, a nossa perspectiva. Um dia tive uma janela. Era só minha. Um dos miradouros escondidos de Lisboa com direito a reportagem pela SIC e tudo. Onde sorria ao rio nos dias felizes sentada com a minha cerveja. Onde chorava nos dias amargos. Onde as ideias fluíam sem fim. Há sítios que nos inspiram apenas pela sua existência.

A vida muda. As escolhas fazem-se e o caminho é outro. A minha janela afastou-se de mim. Eu não me afastei dela e nunca o farei. Porque só de a imaginar, a vida torna-se melhor. Às vezes quando nada corre bem, lembro-me da minha bebida ao pôr-do-sol naquele parapeito onde a vertigem não aparecia.

Escrevo hoje porque a revi. Porque ela continua linda e virada ao Tejo de braços abertos. Relembrou-me de uma coisa importante. Que as coisas boas ficam. Que não se repetem. Cada vez que olho por aquela janela, embora ela esteja sempre no mesmo sítio, o momento nunca será igual. Os sentimentos são outros, eu sou outra. Cada dia que passa mudamos. Quando os anos passam mudamos demais. A nossa forma de olhar o mesmo horizonte muda. Tanto que podemos não gostar mais do que vemos. Queremos lutar para que o que vemos seja igual, que nos dê as mesmas sensações fortes mas tudo desvaneceu. Perdeu-se.

Porque crescemos e já não nos conhecemos. Temos de parar e entender quem é este nosso novo eu. Se esse eu se adequa às coisas que víamos pela janela. Às vezes é preciso que algo com algum impacto nos aconteça, um cisne negro, para que tudo faça sentido. Para que se mude o chip e se entenda o caminho a seguir.

Sofro de insatisfação crónica. Aquela do António Variações. Do “Estou bem aonde não estou”. A minha janela lembra-me sempre disso. Que a minha incapacidade de me sentir satisfeita é uma dor insuportável. Nada é suficiente, não chega. Há sempre uma alternativa que podia ser melhor ou diferente. E isso cansa. Cansa-me a mim. Cansa quem convive comigo e está por perto. Sempre que olho naquela direcção sei que tenho de relativizar e acalmar esta ânsia que me corrói. Repensar tudo. Se calhar vivo num exagero compulsivo. Será que tenho de abrandar? Ou simplesmente mudar de direcção?

1 Comment

  1. MissLilly diz:

    Eu vi a reportagem e adorei a vista e o teu sorriso a janela. Sim da que pensar, a vida é feita de escolhas e as vezes temos de abdicar de certas coisas para ter outras em troca. Nada nos tira as memórias dos sorrisos que trocamos e daqueles momentos sem preço. Se sentirmos que o presente não nos novos momentos bons e vivemos maioritariamente no passado então só significa que está na hora de seguir uma nova estrada. Afinal só se vive uma vez e os momentos que ficam gravados para sempre não tem preço

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