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aldeia comunitária

Rio de Onor, a aldeia mais comunitária de Portugal?

Foi isto que me contaram e toda a minha narrativa sobre Rio de Onor irá neste sentido. Pode não ser “a” aldeia mais comunitária de Portugal, mas aqui as práticas comunitárias existiam até há bem pouco tempo. Como antropóloga e pessoa que acredita na vida em comunidade, tenho muita vontade de ler as obras de Joaquim Pais de Brito e de António Jorge Dias sobre a aldeia. Depois de ouvir o Ti Mariano sobre a vida comunitária da aldeia, ainda fiquei com mais vontade de entender como trabalhavam em conjunto e o porquê dessa alma agregadora se ter perdido ao longo dos tempos. Será apenas a influência capitalista e individualista enraízada socialmente ou o facto das novas gerações partirem em busca de outro estilo de vida? Ou outra coisa?


Onde estão os jovens?


Nesta notícia de 2017, no período de ressaca das 7 Maravilhas, mostra que nesta aldeia existia apenas uma jovem.
Um dos moradores afirma nesta peça, que de facto o comunitarismo, já era. “Cada um já tem o seu forno, a agricultura é de subsistência, já não há gado e está fechada a Casa do Touro” – interessa-me mesmo entender como se perdeu uma coisa tão bonita.

 A economia na contemporaneidade, vive muito do turismo e há um esforço para reabilitar as casas antigas. Tive a oportunidade de entrar na recém-inaugurada Casa do Rio. É um alojamento local localizado no centro da aldeia de Rio de Onor, com vistas e acesso para o rio Onor. Entrei na casa antes dos meus colegas de viagem chegarem com o proprietário que a restaurou e posso asegurar-vos que me pareceu o sítio ideal se quiserem descansar e viver a vida da aldeia. Antigamente, a parte de cima das casas era para as pessoas e a de baixo para os animais. Aqui, foi revitalizada a parte de baixo em loja de artesanato e café. Quem quer investir em Rio de Onor, deve manter a sua arquitetura tradicional de xisto.



Ao estar em Rio de Onor, não podia deixar de pensar na minha professora de Antropologia dos Movimentos Sociais, Paula Godinho cuja obra sempre se focou bastante nas pessoas que vivem em fronteira – zonas de raia. As zonas fronteiriças são sempre muito interessantes porque os habitantes tendem a tirar partido da sua proximidade com outro país. Um exemplo básico e actual será quando os portugueses põem gasolina em Espanha por ser mais barato. Historicamente muitas interacções transfronteiriças – nomeadamente em tempos de ditadura – tiveram um grande peso nos costumes locais.


Uma aldeia dividida entre dois países


Rio de Onor, tem a particularidade de ser atravessada a meio pela fronteira internacional entre Portugal e Espanha e a sua homónima espanhola é Rihonor de Castilla. Ou seja, para efeitos oficiais são duas aldeias, mas na realidade vivem como de uma se tratasse – sendo pelos habitantes distinguida como o povo de cima e o povo de baixo. Visitei Rio de Onor quando as fronteiras estavam fechadas devido à pandemia e foi das coisas que mais me intrigou. Como é que uma comunidade habituada a viver sem fronteiras se adaptou a este momento estranho que todos estamos a passar. Segundo entrevista do Ti Mariano à Renascença, uma das pessoas que preserva todo o conhecimento sobre as tradições da aldeia, “Nem mesmo os regimes de Salazar e de Franco separavam os casamentos, os terrenos e todas as atividades de um e de outro lado”. No entanto, durante a pandemia houve uma excepção para esta aldeia – às quartas-feiras e sábados, durante duas horas, entre as 9h00 e as 11h00, a fronteira esteve aberta para três agricultores, para tratarem dos campos e dos animais. 

Outra particularidade é a língua. Existe um dialecto local – o rionorês que parece estar bastante influenciado pela língua Leonesa. Como sou uma geek do pior, fui ler este trabalho que encontrei online de Dina Rodrigues Macias que afirma que “Estando Rio de Onor situado numa região fronteiriça, é óbvio que estamos perante um contacto de línguas”. Se isto não é lindo, não sei o que será! Preocupa-me que se perca.


Encontros que acrescentam

Para além do Ti Mariano, tive a sorte imensa de falar um pouco com Carlos Ferreira, o director para a área da Natureza do Porto-Norte, com o qual discuti os mais diversos assuntos – desde a história da democracia mundial, como a compaixão é nos distinguir dos outros animais ou ainda como a região do Norte de Portugal tem imenso potencial para o turismo de natureza no contexto da sustentabilidade.

Como fui de autocarro sozinha no dia anterior de Lisboa para Bragança – tal como na canção dos Xutos e Pontapés – precisei de boleia para Rio de Onor, enquanto os meus amigos blogueirinhos vieram todos juntos do Porto 🙂 Isto, porque esta viagem foi organizada pelo Turismo do Porto e Norte. Assim, o Sr. Carlos deu-me boleia e fez-me todo o enquadramento histórico de Rio de Onor. Tivemos um encontro imediato com uma cobra que descansava na ponte e aprendi (ou reaprendi) que o Reino de Leão foi o primeiro reino medieval a firmar-se de forma mais evidente. Falámos ainda em como a fronteira é uma linha imaginária e como o despovoamento facilitava a sua demarcação. É para isto que viajo – para encontrar pessoas que me ensinam. Obrigada Sr. Carlos Ferreira!


Viver em comunidade

Aqui, pastorear os animais, a agricultura ou o forno do pão foram sempre de gestão comunitária e os problemas eram resolvidos no conselho da aldeia. Descobri o que era uma vezeira nesta viagem. Todos os anos havia a eleição do mordomo que assegurava que quem não cumprisse as suas tarefas, pagava uma multa – em vinho, claro! Ficava tudo registado numa vara – a vara da justiça.

Desta manhã passada em Rio de Onor, retiro memórias incríveis do Ti Mariano, muito orgulhoso das suas tradições a explicar-nos a nós, um grupo de viajantes, como é bonito viver em conjunto.

Se visitarem, passem pela ponte romana, a Igreja Matriz, o forno comunitário, a forja e a Casa do Touro. A Casa do Touro é um museu dedicado à cultura tradicional de Rio de Onor, com grande foco no comunitarismo. Este espaço originalmente, albergava o touro da aldeia, também ele, em tempos distantes, comunitário. Hoje, a comunidade junta-se no café da associação e aí existe o convívio entre os habitantes.


Por descobrir!

Uma das coisas que gostava de fazer em Rio de Onor e não tive oportunidade era a observação da vida selvagem, liderada por quem conhece e respeita a natureza. Quando lá estava, alguém disse – “Ali vai o Duarte!”, estava a passear o seu cão – se não estou em erro – e disseram-me que tem uma empresa chamada Dear Wolf que organiza actividades de ecoturismo.

Fiquei com muita vontade de explorar a zona do Parque Natural de Montesinho com mais tempo. O outro lado da fronteira também me parece interessante, falaram-me muito de Sanábria. Conhecem?

Voltarei, sem dúvida!

acrushon

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