Um dia em Belém e Jericó, Palestina

Porque Jesus está quase a nascer e durante este mês todos pusemos uma estrela no cimo da árvore, há que relembrar que essa é a “Estrela de Belém” que guiou os três reis magos até ao local do nascimento de Jesus. Isto, obviamente, segundo a tradição cristã. Que é aquela com a qual a maioria dos portugueses foi educada.

“Olhei para o céu, estava estrelado
Vi o Deus Menino, em palhas deitado.
Em palhas deitado, em palhas estendido,
Filho duma rosa, dum cravo nascido!
(…)
Vamos a Belém, a ver o Menino
Que a senhora tem; (…)”

Nada a ver: Lembram-se do mítico sketch do Herman Enciclopédia de 1997 sobre o facto do menino não fazer nada e estar sempre nas palhas estendido e deitado? Isto sou eu a tentar aligeirar um artigo pesado e cheio de emoção.

Voltando ao assunto…

Neste mês tão santo e embora não ligue muito e até tenha uma espécie de pequeno ódio fulminante pelo Natal como podem ler neste artigo do ano passado, tive a oportunidade de ir a Belém e mais algumas outras terras bíblicas. Estive inclusive em Belém no dia em que foram ligadas as luzes de Natal naquela terra com uma história tão ligada a esta época.

Um privilégio que de facto não posso negar ter tido e que de certo modo me marcou. Talvez não pelo Natal. Ou por Jesus ter nascido ali. Mas pela condição política que se vive nesta zona. Pela completa antítese do que a religião nos quer passar. E falo de qualquer religião e não apenas na cristã. Sente-se uma tensão que não se explica. Um ambiente que pesa e incomoda. Faz pensar e querer entender mais sobre a situação política e religiosa deste local. Confesso que me afasto sempre que possível da política porque me enoja na sua generalidade. Relembra-me que o poder rege o mundo. Mas é inegável que ao vir aqui, quis perceber, ler mais, saber o que se passa e o porquê.

Há muitas agências que organizam tours e a maneira mais fácil de visitar Belém e Jericó é mesmo ir numa excursão, pois está tudo organizado e não terão de parar nos Checkpoints. Nomeadamente no Checkpoint 300 que é bastante utilizado e pode ser moroso. É mais seguro, rápido e eficaz. Mas menos profundo. E por isso, escolhemos ir por nós próprios. Convém estarem atentos às notícias nos dias anteriores e perceber se é seguro. Não tem havido muitos problemas mas é preciso relembrar que é território ocupado e por isso é água sempre prestes a entrar em ebulição.

Há imensos detalhes que é importante saber. Um deles é que mesmo que tenham carro alugado, um carro israelita não deve entrar na Palestina. A maioria das rent-a-car não deixam porque pode ser confundido com um carro que não pertence a turistas e ser alvo de problemas. Por isso o mais fácil é estacionar em Jerusalém. Nós fomos num sábado, o que tornou tudo mais simples pois no sábado (Shabbat), em zonas judaicas está tudo fechado. Conseguimos estacionar sem ter de pagar na zona de Mamilla que é muito perto da cidade velha.

A maneira mais fácil de chegar a Belém, é ir até Jerusalém e perto da cidade velha, na Damascus Gate, dirigir-se ao terminal de autocarros árabe e apanhar o autocarro para Belém. Apanhámos o 231 que custou 7NIS (1,75€). O autocarro deixa-nos numa zona onde há alguns táxis.

A melhor maneira de conseguir andar pela Palestina e ver muitas coisas se tiverem pouco tempo é mesmo alugar um táxi por um dia. Os taxistas que costumam estar nesta zona têm um bom nível de inglês e costumam ser bons guias. É possível fazê-lo de autocarro mas os horários dos autocarros são muito incertos e por isso só com algum tempo entre mãos é que é exequível. Se puderem ficar uns dias pela zona de West Bank, será uma opção viável. Os taxistas que costumam estar nesta zona têm um bom nível de inglês e costumam ser bons guias. O preço de um táxi por um dia não é muito barato. Mas irá depender bastante do que querem ver. O preço por hora costuma ser de 50NIS se ficarem pela zona de Belém e arredores. Se se quiserem aventurar para mais longe como no nosso caso que fomos até Jericó, o preço aumenta substancialmente. Após alguma negociação conseguimos um dia de tour por vários sítios por 800NIS (400 cada um), o que são cerca de 100€/pessoa. Se encherem um táxi, fica muito mais barato. Parece imenso mas a verdade é que isso deu-nos direito a visitar uma série de locais que irei enumerar seguidamente. Importante salientar que este, no geral, não é um destino barato.

Nota importante:

Zonas A, B e C de West Bank.

Zona A – Totalmente com controlo Palestiniano. Cerca de 17%. Existem sinais que proíbem expressamente a entrada de israelitas.

Zona B – Sob controlo palestiniano mas com controlo militar israelita.

Zona C – Quase 60% de West Bank. Completamente sob controlo israelita.

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Belém

1- Aida Refugee Camp

Se o que esperam encontrar são imensas tendas espalhadas por um terreno, não é isso que irão encontrar aqui. Estes campos existem há cerca de 60 anos e são habitados por pessoas que tiveram de deixar as suas casas devido a ocupação. Durante todos estes anos, alguns prédios têm sido construídos embora em condições bastante arcaicas. Têm o aspecto de alguns dos bairros carenciados que conhecemos. Como a Cova da Moura por exemplo. Construções sem plano urbanístico, amontoadas umas sob as outras. A grande diferença reside na instabilidade vivida nestas zonas. Num momento pode estar tudo bem e noutro desencadear-se alguma violência. Este campo que visitámos especificamente fica bem perto do muro. Aqui podemos ver o contraste e as barreiras erguidas.

aida belém

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2- O Muro

Palavras para quê? Um muro. A separar pessoas. A separar futuros. A limitar.

Neste muro há uma imensa expressão de arte. Arte urbana. Onde se almeja por uma vida diferente.

muro belém

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3- Banksy

Porque quando se fala de arte urbana é inevitável não falar do rei. Também aqui está presente. Estas são algumas das obras que dizem ser da autoria de Banksy na Palestina. Dizem que quando Banksy fez a sua intervenção neste muro estabeleceu uma tendência que persiste nos dias de hoje. A de utilizar a arte neste muro como forma de expressão que não existia até então.

banksy palestina

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4- Igreja da Natividade

“É Natal, é natal já nasceu Jesus!”

A igreja da Natividade é o local onde nasceu Jesus. Foi construída por cima da caverna onde Maria deu à luz. Na praça em frente há uma mesquita e tive a oportunidade de estar em Belém no dia em que ia ser ligadas as luzes de Natal nesta cidade. É uma praça interessante porque duas religiões estão presentes de um modo muito marcante.

O nosso taxista avisou-nos que haviam muitas excursões por ser sábado e que a maneira mais fácil de nos despacharmos seria ir com um guia pois podiam passar à frente. Por 50NIS tivemos um guia que nos levou de um modo mais rápido pela igreja da natividade. Basicamente a entrada VIP consistia em empurrar nos sítios certos e passar umas barreiras. O que é certo é que resultou. Haviam mesmo excursões enormes e conseguimos passar. A entrada da igreja é numa porta muito pequena e na própria igreja há 3 partes. A ortodoxa, a arménia e a da ordem dos franciscanos. Para ver o local onde Jesus nasceu é preciso descer umas escadas e é bastante claustrofóbico. A igreja em si é muito bonita mas neste momento está em obras.

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5- Milk Grotto

Esta é a igreja onde Maria amamentou pela primeira vez. Err…yap. For real.

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6- Shepherd’s Field Chapel

A igreja que simboliza o local onde o anjo anunciou o nascimento de Jesus. É um pouco deslocado do centro e a melhor maneira de lá chegar é mesmo de táxi. A arquitectura da capela é muito interessante pois deixa entrar luz directamente por pequenas reentrâncias que dão a intenção de uma luz celestial.

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7- Herodium

Este local é um palácio construído por Herodes dentro do próprio monte. De fora parece apenas um monte normal mas a fortificação existe de modo discreto no interior do mesmo. No entanto esta montanha foi feita artificialmente. A zona do Herodium é uma zona C e está totalmente sob controlo israelita. É possível ver a base militar por lá.

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8- St. George’s Monastery, Wadi Qelt

A melhor surpresa da minha viagem. Quando não esperas nada, a vida surpreende. O nosso taxista parou numa rua e disse-nos para subir um pequeno monte e espreitar para baixo. Incrível. Mesmo mesmo incrível. Das visões mais bonitas que tive nos últimos tempos. Gostava de ter descido mas já não houve tempo. Um oásis!

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9- Nabi Musa

Na estrada de Jerusalém para Jericó encontramos esta mesquita. Os muçulmanos acreditam que foi aqui que o profeta Moisés foi sepultado. É um local de peregrinação. Sim, Moisés não é só importante na Bíblia.

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Jericó

A caminho de Jericó é possível ver que começamos a ficar abaixo do nível do mar. Preparem os ouvidos. 258 metros abaixo do mar.

11 – Mount of Temptation

Marca o local onde Jesus foi confrontado com as suas tentações nos 40 dias no deserto. Existe um Cable Car que podem apanhar para subir que custa cerca de 60NIS. Também é possível fazer esse percurso a pé mas convém ir cedo. A arquitectura é muito interessante nomeadamente se pensarmos em como construíram o mosteiro ali.

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12 – Tree of Zacchaeus

Quem já leu passagens bíblicas sabe da história de um homem responsável pela recolha dos impostos que cometia muitos pecados que subiu a uma árvore para ver Jesus. Este, pediu-lhe para descer pois queria conhecer a sua casa. Após conhecer Jesus, tornou-se um homem generoso e restitui todos os bens.

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13 – Hisham’s Palace

Confesso que estive indecisa em entrar mas não me arrependi. Este local no seu tempo deve ter sido lindíssimo. O Palácio de Hisham é o monumento arqueológico islâmico mais importante da Palestina, e é uma grande atração para visitantes e palestinianos.

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14 – Tel al-Sultan 

Sabiam que Jericó é a cidade habitada mais antiga do mundo?

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No topo do hotel em frente é possível ver a imensidão que circunda Jericó, espreitar a Jordânia e apreciar o Tel al-Sultan.

Coisas que me marcaram nesta viagem? Absolutamente tudo. Mas dado que é Natal, não posso deixar de dizer que todo este conflito numa zona tão religiosa de tantas formas mexeu especialmente comigo que sou uma ateia convicta. Neste Natal, pensem realmente no próximo e mantenham isso para todos os vossos dias. Que o nosso umbigo deixe de ter tanta importância.

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