O Natal não é das crianças.

Não há árvore de Natal.

Nem há esforço para que haja. Sim. Sou daquele grupo detestável que existe no mundo que não morre de amores pelo Natal. Peço perdão à minha família que sempre me deu um Natal tradicional e nunca deixou que me faltasse uma prendinha. Lá estarei dia 24 a abraçar os meus avós com o abraço mais apertado do mundo.

Verdade que me lembro de dias de Natal na casa da minha bisavó onde chegávamos a ser 40 e hoje somos 5 pessoas. Verdade que ao longo dos anos fui entendendo que não me identifico com uma série de coisas que se diz do Natal. O Natal podia ser fixe.

“O Natal é para estar com a família”.

E o resto do ano? O Natal seria fixe se ao longo de todo o ano nos lembrássemos mais do nosso tio afastado, dos problemas de saúde dos nossos avós, da prima emigrada na França ou daquele amigo que não vemos nunca. O Natal seria fixe se não fosse a única altura em que tentamos fazê-lo.

“O Natal é para as crianças”.

Não basta serem “o melhor do mundo” senão também ficarem com o Natal. Não. O Natal é de todos. “Antes quando eles eram miúdos é que o Natal tinha graça, agora estão crescidos é mesmo só uma prendinha”. Não. Os adultos também merecem prendas. E na minha opinião merecem mais. Uma criança diz o que lhe apetece. Ou é malcriado ou hiperactivo. Um adulto passa o ano a engolir sapos. A não poder dizer tudo o que lhe vai na alma. O Natal era fixe se presenteasse todos os que aguentaram não mandar aquela boca no momento ideal ao chefe, não disseram à colega de trabalho que aquele vestido lhe fica um nojo ou não viraram as costas a gente sonsa e hipócrita. Merecemos prendas porque por mais que nos apeteça sermos nós próprios, o raio da sociedade e do bom tom não nos deixa. Os putos fazem o que querem. Não merecem tanto.

“Este ano é só uma lembrança”.

Verdade que tinha prendas que não cabiam na sala e iam até ao corredor e hoje tenho uma lembrança. Tudo bem. Os tempos são outros. O problema das lembranças é o consumismo desenfreado. Ninguém pensa no exagero de consumo de coisas desnecessárias que se compram, nem nos quilómetros gastos papel de embrulho. Se o Natal fosse fixe obrigava a que as grandes superfícies fechassem todas nesta quadra. Quantas prendas das que escolheste foram compradas no comércio tradicional? Fica a reflexão.

“Não me apetecia nada ter de dar prenda mas já sei que ela vai dar e depois fica mal”.

Não. Não fica mal. Fica mal é oferecer uma prenda aleatória que nada tem a ver com a pessoa em questão só porque tem de ser. Comprem prendas para quem querem mesmo comprar e só se encontrarem algo adequado. Se o Natal fosse fixe faria com que ao comprar uma porcaria à última da hora porque “tem de ser”, todas as vossas prendas se transformariam automaticamente em meias de raquetes para o resto da vida.

“Natal é tempo de ajudar”

Não. É o ano inteiro. Não é por no Natal se lembrarem de contribuir com um pacote de arroz para o Banco Alimentar se forem ao supermercado num desses dias que eles andam por lá, que são super altruístas. Somos se pensarmos nisso sempre. Se em todos os momentos em que podemos contribuir para ajudar mesmo que seja de um modo simples, o façamos. O Natal era fixe se não metesse na cabeça das pessoas que é nesta altura que se devem lembrar dos pobrezinhos e consciencializasse para que isso acontecesse todo o ano.

“As luzes deste Natal não estão tão giras como no ano passado”

As luzes de Natal não deviam existir sequer. São um gasto de dinheiro dispensável e idiota. O Natal era fixe se pegassem nesse dinheiro e o dessem a quem precisa ou dorme na rua.

“Porta-te bem senão o Pai Natal não te dá prendas”

Acaba sempre por dar. O mimo é bem mais importante. Tendo em conta que só se começa a dizer isto em Outubro, tudo o que ficou para trás não conta. Imaginem que existia uma caderneta que os miúdos teriam de enviar a uma entidade que a carimba e lhes diz se estão aptos ou não a receber prendas. De certeza que havia menos gritaria nos restaurantes e birras no supermercado. Talvez até menos bullying nas escolas. O Natal seria fixe se não ensinasse os miúdos a serem consumistas logo de pequenos. Se não os ensinasse que se manipularem as suas acções, ganham coisas.

“O Natal é quando o homem quiser”.

A esta digo apenas…ainda bem que não é. O Natal anda com os valores todos errados.

 

Photo Credits: Jeff Belmonte

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