Campismo Selvagem no Algarve.

Sei que vou ter de escrever vários artigos sobre a minha região. Porque a adoro. Porque tem mil recantos e detalhes. Hoje escrevo sobre algo que todas as pessoas de nacionalidade de portuguesa certamente já fizeram até aos 30: Campismo Selvagem no Barlavento Algarvio.

Infelizmente nunca tive grandes oportunidades de aproveitar a hotelaria do Algarve porque sou de lá e acabo por experimentar coisas noutras zonas. Além disso padeço do problema de todos os algarvios. Não sou de uma cidade. Sou do Algarve. Das coisas mais recorrentes é dizer que sou de Loulé e alguém me dizer algo como “És? Que giro, tenho um primo em Lagos, se calhar conheces!”…ora, a probabilidade de eu conhecer o teu primo de Lagos é baixa dado que o Algarve tem quase meio milhão de habitantes. O Algarve não é uma cidade. Há muita coisa para ver e descobrir. Até hoje, o turismo que fiz no Algarve foi o de low budget/ pobretana. Sou fã de campismo selvagem e de ultrapassar os limites de conforto a que estamos habituados e por isso gosto do desafio. Isso e o facto de não ter dinheiro. Mentiria se não afirmasse que há muitos hotéis a que adoraria ir 🙂 Um hotel não é só uma dormida, é uma nova experiência.

Dia 1

Cheguei à bela estação da Funcheira. Os meus amigos desceram a Costa Alentejana e apanharam-me lá. Escusado será dizer que fiquei uma hora à espera ao sol. O português não gosta de pontualidade. Na Funcheira não há nada. Não há um café ou uma casa. Há carrinhas que apanham turistas que procuram aprender a surfar e querem uma estadia diferente neste Portugal.

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Almoçámos por Odemira e não poderia deixar o Alentejo sem umas migas com entrecosto. Maravilhosas. O toque perfeito da laranja a cortar a gordura da carne e as migas no ponto.

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Rumámos a Sul. Com o Atlântico à nossa direita. A caminho do nosso destino incerto, algures no Algarve. A ideia era estar um pouco por uma praia, jantar e encontrar um sítio para dormir. Tentámos ir à minha amada Praia de Odeceixe mas aconteceu o costume. Arrisco a dizer que estava ao nível de um dos dias de Sudoeste. Nem um único sítio para estacionar. Odeceixe tem uma praia linda, onde jamais uma foto fará jus à sua beleza. Um areal imenso. Está no meu top de praias portuguesas.

Descemos mais um pouco e a praia escolhida foi Monte Clérigo. Não ia lá há muitos anos, desde pequenina quando ia com a minha mãe. O que fez sentido. É uma praia com muitas crianças por todo o lado. Descanso igual a zero. As casas nas dunas apesar de claramente segundo novas normas não devessem estar ali, dão-lhe o ar familiar e acolhedor que possui. Casinhas brancas, rudimentares de um andar apenas onde certamente as mesmas pessoas se encontram ano após ano desde pequeninas até que os seus pequenos, também esses, conhecem os novos amigos da casa ao lado. A típica casa que passa de geração em geração até que um dia decidam que já não poderá estar ali. Dormimos um pouco, dissemos coisas menos próprias no meio da criançada mas eis que o momento mágico do dia chegou. O pôr-do-sol.

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Fomos até ao Parque de Campismo do Serrão para tomar banho. Lá porque é campismo selvagem não quer dizer que somos menos asseadinhos. Paga-se 3€ para um banho quente.

Tempo de Jantar. A ideia nesta viagem era poupar em tudo mas decidimos que comer fora para experimentar comida regional era permitido. Parámos em Aljezur e jantámos no Portal da Várzea onde comemos uma Feijoada de Búzios maravilhosa. A Sopa de Peixe também estava deliciosa com sabores bem intensos. Ficámos a beber cervejas no restaurante até ser hora de fechar e faltava ainda encontrar um sítio para dormir. Decidimos espreitar a Praia do Amado porque existe um parque de caravanas. O meu grupo tinha 6 pessoas e íamos distribuídos em dois carros. Uma carrinha de dois lugares (tipo as da fruta, não sei explicar de outro modo) e um carro onde íamos quatro. Na parte de trás da carrinha estava um colchão onde dormiam duas pessoas e era onde durante o dia seguiam as malas maiores e as duas tendas onde ficavam as outras 4 pessoas. O Parque de Caravanas do Amado tem uma casa-de-banho de apoio aos caravanistas que é possível utilizar. Esta noite foi extraordinária porque o céu estava estrelado de um modo inexplicável. Discutimos constelações enquanto bebíamos vinho tinto pelas duas, três da manhã. Uma simplicidade imensa. Não havia rede de telemóvel, não havia internet. Apenas nós e o mundo que nos rodeava. Vimos estrelas cadentes, rimos e conversámos até não conseguirmos mais.

Dia 2

Novo dia. Felizmente estava um pouco nublado o que nos permitiu dormir até mais tarde. O frenesim das escolas de surf já enchia a praia de cores e pranchas. A Praia do Amado tem rochas muito características de várias cores que a tornam muito especial e única.


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Fomos até Vila do Bispo comer um pequeno-almoço reforçado para que servisse como almoço. Vila do Bispo é muito conhecida pelos seus Percebes e sandes de moreia. São dois petiscos a não perder por aqui. A maioria dos restaurantes do centro da vila servem estas iguarias. Infelizmente não foi nada disto que comi. Comi um pão pizza, que não sabia o que era e na verdade foi uma grande surpresa, uma coca-cola e um café porque a ressaca tomou conta de mim e por apenas 4€.

Desta vez não passámos por Sagres mas se estiverem por perto, aconselho que lá passem para espreitar o Forte e o Cabo de São Vicente. Sagres é ainda um sítio a explorar à noite. A vibe que se faz sentir nos bares da zona dada a presença constante de estrangeiros e a discoteca Topas, dão origem a noites muito animadas.

Escolhemos a Praia do Zavial para passar a tarde e não poderia ter sido melhor escolha. Uma praia tranquila, com espaço e com água cristalina. Deu para descansar, rir às gargalhadas e falar de coisas sérias. 
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Parámos no restaurante da praia para beber umas cervejas de final de tarde a decidir o rumo da noite. Decidimos que hoje seria a poupança. Fomos ao intermarché comprar frangos e bebidas para o acampamento e descobrimos que num parque de caravanas em Figueira era possível tomar banho por apenas 1€. Água quentinha e boas condições.

Ficámos a dormir no parque de caravanas da Praia da boca do Rio. A noite estava ventosa e não foi fácil dispor as tendas de modo a ficarmos abrigados do frio para jantar o nosso tão aguardado frango. Mais agasalhados e protegidos pela carrinha, jantámos e bebemos uns copos.

Dia 3

A praia de manhã não estava agradável. O vento não nos deixava aproveitar o sol que se fazia sentir. A praia era pequenina mas bastante fofa. Nunca tinha ouvido falar e pareceu-me que noutras condições fosse um dia bem calmo, longe da loucura algarvia.

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Decidimos seguir para longe da zona de Sagres que é sempre mais ventosa e parámos em Lagos na popular Praia de D.Ana. Ao chegar é quase impossível não olharmos para o edifício embargado há anos que lá está. Um horror e péssima imagem para quem chega. Deveria existir alguma pressão para que isto se resolvesse porque esta praia é das mais visitadas desta zona.

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Muito se tem falado sobre a requalificação desta praia. Por muitos considerada uma das praias mais bonitas do mundo, ficou muito diferente depois das intervenções artificiais a que foi sujeita. Verdade que o seu areal está mais extenso mas muito modificado. Continua bonita mas talvez tenha perdido um pouco de encanto.

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Neste dia ainda fomos à Praia da Marinha. Esta praia é procurada por muitos pela sua rara beleza. Para chegar à zona que aparece em todos os postais é preciso andar até ao final da praia entre rochas e água mas vale mesmo a pena percorrer o caminho até ao fim.

Penso que numa visita ao Algarve, esta deveria ser uma paragem obrigatória.

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Por favor, alguém que invente uma aplicação que diga que praias possuem chuveiros. Facilitava a nossa vida. Procurámos em várias praias e acabámos a beber umas cervejinhas na Praia de Vale Covo. Cerveja essa que foi um abuso de cara. Não recomendo esta pequena esplanada porque é um pequeno assalto. Não encontrando chuveiro, neste dia optámos pelo modo toalhitas. Não me vou alongar muito sobre este método de higiene 😉

Não há nada que adore mais que um peixinho grelhado! A ideia surgiu de um rapaz do grupo que estava com desejo de peixe e assim foi. O jantar foi pelo Carvoeiro que apesar de ser muito turístico, ficou bastante em conta. Não pagámos mais de 20€ e ficámos muito satisfeitos com a refeição. Seguimos para encontrar um sítio para dormir perto da Praia da Marinha e acampámos numa zona perto do parque de estacionamento com uma clareira entre arbustos. Não éramos os únicos a acampar por ali mas não havendo caravanas por perto até houve música a bombar e fizemos a nossa própria festa. Porque um céu estrelado daqueles deve e deverá ser sempre celebrado.

Dia 4

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Dia de ver as famosas Caves de Benagil. Fomos até à praia e percebemos que a cave que circula por toda a internet era mesmo do lado esquerdo da praia. No entanto, os barcos que nos levam até lá eram 15€ por pessoa. Como tinha lido que era possível ir a nado, sugeri que tentássemos e assim foi. Estou viva ao dia de hoje não devido à minha óptima técnica de natação mas sim à paciência dos meus amigos que me motivavam ao longo das vezes que levei com ondas na cara. O vento ondulava o mar desvairado. Até à cave estava a favor do vento e mesmo assim foi difícil. A cave é mesmo lindíssima e digna de todos os elogios. Não consegui tirar fotos porque à data ainda não tinha uma câmara à prova de água. Dizem que quando não há fotos é como se não tivesse acontecido. Fica cá dentro, do meu coração e da memória. Eu e aquelas duas pessoas que estavam comigo naquele dia vimos um pouco de magia. A pergunta que me passava a todo o momento era…como é que eu saía dali? Foi duro. Não recomendo a quem não confia plenamente nas suas capacidades como nadador.

Após uma soneca bem dormida era tempo de voltar à realidade, a Lisboa. Acabou. Passou. Esta viagem de quatro dias ficou por volta de 100-120€. Com viagem de ida e volta de Lisboa, comida, copos e banhos. É um facto que não fomos a discotecas e a bares. Não houve Seven ou Bliss. Vivemos a viagem muito natural e no nosso grupo. Com uma liberdade imensa em que desfrutámos de cada minuto.

Queria deixar um grande apelo a quem pratica campismo selvagem. Apanhem sempre o lixo! É por muitas vezes não haver cuidado com a natureza que não permitem que se faça campismo na maior parte dos locais. É preciso deixar tudo impecável para quem vem depois.

Ao longo do tempo em que escrevi este artigo descobri o Eurostops e fiquei louca. Dá imenso jeito. Falarei em breve sobre a minha primeira experiência de caravanismo.

1 Comment

  1. Helena diz:

    Também adoro a praia da Marinha. Sempre que vou ao Algarve passo por lá para 1 dia de praia.
    Beijos

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