Argel: uma cidade que não se deixa resumir
Há uma mulher toda de negro e uma criança de mão dada numa viela da Casbah de Argel. Estão de costas. A ruela é estreita, branca, em declive, e não há mais ninguém, nenhum ruído de fundo, nenhuma câmara além da minha. A criança tem uma mochila com carros de corrida de desenhos animados. Não me olham. Desaparecem na curva seguinte.
Fico parada durante uns segundos que não consigo explicar bem. Não é nostalgia, não é beleza no sentido turístico. É a sensação de ter visto qualquer coisa que continua. Que existia antes de eu chegar e vai continuar depois de eu sair, indiferente à minha presença. O manto negro do século que passou e a mochila do século em que estamos. A Casbah contém os dois sem esforço.
Argel tem muitos nomes.
Al-Djazaïr:a ilha, ou as ilhas, os recifes que os fenícios avistaram da costa e que deram nome à cidade e depois ao país inteiro.
La Blanche, a Branca, pelos muros de cal que descem em cascata para o Mediterrâneo e que do avião parecem uma plateia debruçada sobre o mar.
E depois há a Casbah, cujo nome em árabe significa simplesmente cidadela, o coração antigo que sobreviveu a tudo o que o mundo lhe fez.
O que o mundo lhe fez foi bastante.
No século XVI, a cidade vivia sob ameaça da expansão espanhola no Mediterrâneo. Os seus habitantes pediram ajuda a Khayr al-Din, o corsário otomano a quem a Europa chamou Barbarossa, sem a conotação de pirata que o nome carrega em português. Khayr al-Din veio, expulsou os espanhóis, colocou Argel sob protectorado otomano e construiu as muralhas que ainda hoje definem os contornos da Casbah.
A cidade tornou-se capital de uma regência que dominou o Mediterrâneo ocidental durante três séculos: os corsários de Argel que saquearam costas de Portugal a Itália, que mantinham europeus cativos, que aterrorizavam as rotas comerciais com uma eficácia que a Europa nunca neutralizou completamente. Miguel de Cervantes esteve preso aqui entre 1575 e 1580, à espera de um resgate que tardou. Diz-se que o desajuste entre o herói e o mundo que atravessa Dom Quixote nasceu em parte destas ruas, o livro fundador da literatura ocidental moderna escrito por alguém que passou cinco anos nesta cidade.
O último quarteirão sobrevivente da Casbah baixa
O Bastião 23 / Palais des Raïs foi construído em 1576, foi residência dos Raïs, os capitães que eram o núcleo do poder marítimo de Argel, e é hoje o último quarteirão sobrevivente da Casbah baixa, mesmo à beira do mar.
Três palácios, seis casas de pescadores, pátios com azulejos importados, varandas de madeira esculpida. O nome Bastião 23 foi-lhe dado pelos franceses durante a ocupação, quando numeraram as suas defesas militares.
O que me prendeu ali não foi a arquitectura, embora seja notável. Foi imaginar o que seria habitar àquelas casas, acordar com o Mediterrâneo a poucos metros, ouvir o mar à noite pelos pátios fechados. Há uma qualidade de vida encerrada nestes espaços que a fotografia não consegue capturar: a frescura dos pátios, e a sensação de que o mar não era uma vista, mas uma presença constante, uma vizinhança.
As ruas da Casbah
Em 1830, a França invadiu Argel. O que se seguiu foram 132 anos que transformaram a cidade do modo que ainda hoje se lê em cada esquina: a Casbah mantida à margem enquanto se construía uma cidade europeia em baixo, as largas avenidas que cortaram o tecido antigo, os edifícios coloniais que ainda dominam o centro.
Mas a Casbah resistiu. Não de forma heroica e consciente, mas pela simples teimosia de continuar a ser habitada, de continuar a funcionar segundo a sua própria lógica, ilegível para quem de fora tentasse controlá-la.
Foi essa ilegibilidade que a tornou central na Guerra de Independência. As suas ruelas estreitas, os seus quintais escondidos, as suas passagens que só quem cresceu lá conhece tornaram-na uma fortaleza natural para o FLN. A Batalha de Argel de 1957, o confronto urbano entre o Exército de Libertação e os paraquedistas franceses, que Gillo Pontecorvo imortalizou no seu filme de 1966 filmado nestas mesmas ruas, foi travada aqui, neste labirinto, com uma precisão que o Pentágono usou décadas mais tarde como estudo de caso sobre guerrilha urbana.
Há grafitti na Casbah.
Muito. E uma parte significativa é de futebol: nomes de jogadores, emblemas, o número de uma camisola favorita. Não é acidental.
Grande parte destes graffiti está ligada aos dois principais clubes de Argel, o MC Alger e o USM Alger. A rivalidade entre ambos estende-se muito para além dos estádios e reflete-se também nas paredes da Casbah, que se transformam num território simbólico onde os adeptos deixam a sua marca. Segundo vários estudos, os murais, as siglas e os escudos dos clubes funcionam como uma forma de afirmar a identidade e a pertença ao bairro.
São então uma expressão da identidade social e cultural da Casbah e ajudam a compreender a importância que o futebol tem no quotidiano da cidade.
Argel não se esgota na Casbah.
A poucas estações de metro, no bairro do Hamma, o Jardin d’Essai estende-se ao longo do mar numa sucessão de jardim francês, jardim inglês e parque zoológico. Criado em 1832, é um dos mais importantes jardins botânicos do mundo, com espécies de todos os continentes alinhadas em avenidas de uma quietude que contrasta com o ruído da cidade.
Mesmo ao lado, o Museu Nacional de Belas Artes tem uma colecção de mais de 8.000 obras que o torna um dos maiores museus de arte do continente africano. Pintura europeia do século XV ao XX, mas também uma colecção de arte argelina e orientalista que mostra como esta cidade foi vista de fora e como se viu a si mesma.
A partir da estação do Jardim d’Essai, um teleférico sobe até ao Memorial dos Mártires (Makam El Chahid). As três palmas de betão de 92 metros que se erguem sobre a cidade em honra dos falecidos na guerra de independência. Do alto, Argel estende-se abaixo em camadas: a Casbah branca na encosta, os boulevards coloniais em baixo, o Mediterrâneo no fundo.
Notre Damme D'Afrique
E depois há a subida à Basílica de Nossa Senhora de África, no alto da colina da Bouzaréah. Construída em 1872 por uma diocese colonial e ainda hoje em funcionamento numa cidade muçulmana, tem sobre o altar uma inscrição que condensa o que é Argel melhor do que qualquer guia: “Notre Dame d’Afrique, priez pour nous et pour les musulmans.” Nossa Senhora de África, reza por nós e pelos muçulmanos. Uma basílica católica do século XIX, numa cidade árabe e berbere, a pedir às duas religiões que rezem juntas.
Grande Mesquita Djamaâ el-Djazaïr
Argel inaugurou em 2019 a Grande Mesquita Djamaâ el-Djazaïr. A terceira maior do mundo, com capacidade para 120.000 fiéis e um minarete de 265 metros. o mais alto do planeta. A escala é impossível de compreender até se estar mesmo em frente: é uma declaração de intenções de um país que chegou ao século XXI com os seus próprios termos, construída para durar tanto quanto as pedras da Casbah que ficam a poucos quilómetros.
Literatura e pensamentos políticos
Enquanto a guerra se desenrolou, outro debate tomava forma, desta vez no campo das ideias. Frantz Fanon tinha chegado à Argélia em 1953 para dirigir o serviço de psiquiatria do Hospital Blida-Joinville. Foi aqui que o contacto diário com os efeitos da violência colonial transformou o seu pensamento. Juntou-se ao FLN e a experiência argelina acabaria por dar origem, alguns anos mais tarde, a Os Condenados da Terra. A Argélia não foi apenas o cenário. Foi a matéria-prima da sua obra.
Ao mesmo tempo, Albert Camus, que cresceu na pobreza em Argel, escrevia sobre esta terra de uma forma completamente diferente. Nas suas páginas, a Argélia é luz, mar e memória, muito mais do que um campo de batalha ideológico. Camus nunca deixou de amar o país onde cresceu, mas também nunca conseguiu imaginar plenamente uma Argélia independente.
Camus e Fanon representam duas formas profundamente diferentes de compreender o colonialismo e o futuro da Argélia. Um procurava uma convivência que a história acabaria por tornar impossível. O outro acreditava que a libertação só podia nascer da rutura. Ambos escreveram sobre a mesma terra. Ambos a conheciam profundamente. Mas viram-na através de lentes completamente diferentes.
Notas Finais
Argel foi apenas o ponto de partida. A uma hora de estrada ficam as ruínas romanas de Tipaza, um anfiteatro à beira-mar sobre o qual escrevo noutro artigo. O norte da Argélia tem mais cidades, mais histórias e mais camadas do que uma semana consegue conter. Mas se tiveres de começar por um sítio, começa por Argel. E dentro de Argel, começa por perder-te na Casbah sem mapa e sem pressa. O resto vem por si.
Esta viagem foi feita a convite do Ministério do Turismo e Artesanato da Argélia, através da Embaixada da Argélia em Portugal. Como sempre, a opinião e o que escolho contar é inteiramente de minha autoria.


