Roteiro pela Argélia: Argel, Tlemcen, Oran, Annaba e Tipaza
Há destinos que surpreendem por serem muito mais do que esperavas. A Argélia é um desses lugares, mas com uma diferença: é que a maioria das pessoas nem chega a esperar nada, porque simplesmente nunca pensou em ir. E é exactamente aí que está a magia.
Sabias que a Argélia é o maior país de África e o décimo maior do mundo? Aqui, encontramos um território de contrastes onde o deserto parece infinito e a modernidade se revela até no metro de Argel.
Em maio de 2026 passei uma semana a percorrer o norte da Argélia, de cidade em cidade, entre ruínas romanas com vista para o Mediterrâneo, medinas classificadas pela UNESCO, mesquitas do século XII e um art déco que ninguém me disse que existia. Este é um roteiro possível pelo Norte da Argélia para quem quer ir rumo a um desconhecido, que fica aqui tão perto.
Deixo desde já o disclaimer que há imensas povoações pelo meio destes locais que menciono que merecem certamente uma visita e quem embora não tenha tido a oportunidade de explorar agora, conto fazê-lo um dia.
Argel, a Branca
Cheguei a Argel, a capital da Argélia, e o primeiro contacto com Argel foi de surpresa. Na maioria das viagens venho sem expectativas, mas confesso que desta vez estava mesmo intrigada. Queria saber o que se passava daquele lado do Mar Mediterrâneo menos explorado pelo turismo, num destino que é fora do óbvio.
A cidade cai em cascata sobre o mar, com os edifícios brancos a escalar a colina em camadas, e dizem ser por isso que lhe chamam “La Blanche”, a Branca. É como que uma uma cidade em forma de anfiteatro virada para o Mediterrâneo.
Em Argel há muito para ver e por isso diria que são necessários pelo menos três dias.
A Casbah é o coração histórico de Argel e Património Mundial da UNESCO. É um labirinto de ruelas em declive, casas brancas com azulejos, arcos, sombras e cheiros a especiarias e pão acabado de fazer. Não há aqui a turistificação de outras medinas do Mediterrâneo, podes caminhar durante horas e perceber que és o único visitante estrangeiro à vista.
Desce até ao Bastião 23 (Palais des Raïs), um conjunto de residências otomanas do século XVI hoje transformado em museu e espaço cultural. No caminho é possível ver a Mesquita de Ketchaoua.
À beira do Mediterrâneo, o Bastião 23 transporta os visitantes para a Argel otomana, através de palácios históricos que testemunham a profunda relação da cidade com o mar. É um dos raros locais onde ainda é possível imaginar a antiga Casbah a descer até ao Mediterrâneo.
À tarde, sobe até à Notre Dame de África, uma igreja católica do século XIX no topo da colina, com vista panorâmica sobre a baía.
No dia seguinte, podes visitar o Jardin D’Essai e o Memorial dos Mártires (Makam El Chahid), o monumento mais icónico de Argel, três palmas de betão elevadas ao céu em homenagem à guerra da independência. Não percas uma visita à Grande Mesquita de Argel (Djamaa el-Djazaïr), inaugurada em 2019, que é actualmente a terceira maior mesquita do mundo, com capacidade para 120 000 fiéis e um minarete de 265 metros. A escala é difícil de compreender até te encontrares no complexo.
Tipaza, Ruínas junto ao mar
Tipaza é uma cidade costeira com ruínas romanas que estão literalmente em frente ao mar. O anfiteatro, as vilas, os templos, tudo com o Mediterrâneo como pano de fundo permanente.
Perto das ruínas há muitas lojas de souvenirs com artesanato local que podem ter boas opções de ofertas para a família e amigos.
No caminho de regresso a Argel, é indispensável fazer uma paragem no Mausoléu Real da Mauritânia, um monumento funerário circular do século I a.C. que domina a paisagem numa arriba com vista para o mar. A sua escala e o seu estado de preservação são surpreendentes.
Nos meus dias em Argel e Tipaza, fiquei no Hotel El Djazaïr, conhecido como Hotel Saint Georges.
Uma visita ao Hotel Saint Georges é uma viagem ao passado de Argel e da Argélia, onde corredores, salões e jardins contam histórias de diplomatas, celebridades e momentos marcantes do século XX.
Oran , a cidade dos dois leões
Oran é a segunda maior cidade da Argélia, com um porto imponente, uma energia mediterrânea inconfundível e uma herança arquitectónica que mistura o árabe, o otomano e, em grande dose, o colonial francês.
Ao caminhar pela Praça do 1º de Novembro e pelo Boulevard de la Soummam, vais perceber porquê.
O roteiro do dia passou pela Câmara Municipal com os seus dois leões de pedra à entrada, pelo Teatro de Oran, pela estação de Karguentah e pela orla marítima do Boulevard de l’ALN.
O Museu Nacional Ahmed Zabana merece algum tempo porque é um dos museus mais importantes da Argélia e uma excelente introdução à história e à cultura da região. Tem uma colecção de pintura argelina do início do século XX ao presente que vai surpreender quem não conhece este universo artístico. No dia que fomos, vimos um grupo a fazer um workshop de mosaicos e é algo que adoraria fazer um dia.
Esta é a cidade que Albert Camus escolheu para cenário de “A Peste”, transformando a cidade argelina num cenário universal para refletir sobre a fragilidade humana, a solidariedade e a capacidade de resistir em tempos de crise.
À tarde, sobe ao Forte de Santa Cruz, construído pelos espanhóis no século XVI, e visita a Capela de Nossa Senhora de Santa Cruz mesmo ao lado, de onde tens uma das vistas mais bonitas do Mediterrâneo ocidental.
Outras coisas a visitar: a Mesquita Hassan Pasha, e talvez um ponto de curiosidade incontornável, a Praça de Touros de Oran, única em todo o continente africano.
Dica: Não saias de Oran sem fazer o percurso costeiro por Cap Falcon, Aïn Turck, Bousfer e Les Andalouses — praias desertas e mar azul-transparente a 20 minutos do centro da cidade.
Tlemcen, a pérola do magrebe
A uma hora e meia de estrada a este de Oran, Tlemcen é uma das cidades mais surpreendentes da Argélia. Chamam-lhe a Pérola do Magrebe e, depois de entender a sua história, é possível entender porquê.
É imprescindível uma passagem pelas Cascatas de El Ourit e pelas Grutas de Beni Add (Ain Fezza). Escondidas entre as montanhas de Tlemcen, as Grutas de Ain Fezza revelam um mundo subterrâneo fascinante, moldado pacientemente pela natureza ao longo dos séculos.
O coração histórico de Tlemcen orbita à volta das ruínas de Mansourah que escondem um dos tesouros menos conhecidos do mundo islâmico: um minarete de 38 metros, que ergue no meio de um campo sem mais nada à volta. Mansourah conta a história de um cerco que durou anos e de uma cidade construída para desafiar a poderosa Tlemcen do século XIV.
Na vila de El-Eubad, o Túmulo de Sidi Boumedienne e as suas madrassas completam uma tarde de espiritualidade e beleza arquitectónica difícil de igualar. Passa pelo Palácio Mechouar (o palácio real do Reino Zianida) e sobe ao Plateau Lella Setti para a melhor vista panorâmica da cidade.
Quando visitei, almoçámos no Hotel El Zianides, para experimentar a cozinha local.
O Grand Hôtel Oran foi a minha base para explorar Oran e Tlemcen. Com a sua arquitetura histórica e localização privilegiada, permitiu-me mergulhar ainda mais na atmosfera única do oeste argelino.
Annaba: Hipona e Santo Agostinho
Talvez Annaba seja a cidade menos visitada deste roteiro e, possivelmente, a mais emocionante para quem gosta de história. Começa pela Basílica de Santo Agostinho, construída no século XIX sobre a colina que domina a cidade e o mar. É uma obra arquitectónica impressionante, e o contexto histórico carrega-a ainda mais: foi aqui, em Hipona, que Aurélio Agostinho viveu, foi bispo e morreu em 430 d.C. enquanto os Vândalos sitiavam a cidade.
Desce até às ruínas de Hipona (Hippo Regius), onde vais aprender sobre o fórum romano, as termas, e os mosaicos. Há qualquer coisa de belo em caminhar por uma cidade romana desta dimensão com tamanha tranquilidade.
À tarde, percorre os bairros antigos da cidade para sentir a arquitectura colonial que ainda persiste.
Em Annaba, fiquei no Hôtel Seybouse International, um dos hotéis mais emblemáticos da cidade, que se ilumina com cores vibrantes à noite. Tem vista para o Mediterrâneo e uma localização privilegiada para explorar a cidade.
Informações práticas
Como chegar:
Voos directos de Lisboa para Argel (Houari Boumédiène) operados pela Air Algérie e pela TAP. Existem também alguns com escala em Madrid que não sendo diretos, são muito rápidos.
Duração: aproximadamente 2h30.
Visto:
Necessário para cidadãos portugueses. O processo foi simplificado recentemente. Consulta a Embaixada da Argélia em Portugal antes de viajar. Segue a Embaixada da Argélia em Portugal no X para ficar a par das últimas informações.
Moeda:
Dinar argelino (DZD). Não é convertível fora do país, o ideal é trocar dinheiro à chegada.
Transportes internos:
A Argélia tem uma rede de voos domésticos eficiente (Air Algérie). Para distâncias mais curtas, táxis e transfers privados são a opção mais prática. Não tive oportunidade de experimentar a rede ferroviária, mas foi-me dito que funciona super bem.
Línguas:
Árabe e berbere (Tamazight) são as línguas oficiais da Argélia. O francês é amplamente falado, especialmente nas cidades. Inglês é menos comum, por isso umas palavras em francês ajudam muito.
Notas Finais
Esta viagem foi realizada a convite do Ministério do Turismo e Artesanato da Argélia, através da Embaixada da Argélia em Portugal, no âmbito de um programa Eductour. O convite foi endereçado à ABVP.
Honestamente, fiquei com muita vontade de voltar e explorar sítios como Constantine, Béjaïa, Djanet e Timimoun, entre muitos outros. A Argélia foi uma surpresa enorme e é meu desejo voltar brevemente para regressar a alguns destes locais que visitei e explorar um pouco mais do que o pais tem para oferecer.


