Tlemcen: uma das maiores surpresas da Argélia
Havia um sítio no programa da Argélia que eu não conhecia de nome. Tlemcen. Tinha passado os olhos pela palavra antes de partir sem lhe dar particular atenção. Vi que estava algures perto de Oran e era mais uma paragem num itinerário já carregado. Quando lá cheguei, percebi que tinha cometido o erro clássico de quem viaja sem planear muito: subestimar o que não conhece. O que na maior parte das vezes, é também o que mais aguardo que aconteça: ser surpreendida.
Tlemcen fica a uma hora e meia de estrada a leste de Oran e é uma paragem que a maioria dos visitantes da Argélia não faz porque não sabe que existe. É um erro porque é provavelmente, uma das cidades mais extraordinárias do Mediterrâneo ocidental.
Chamam-lhe a Pérola do Magrebe. Entre os séculos XIII e XV, Tlemcen foi uma das grandes capitais culturais do Islão ocidental. O encontro entre a cultura árabe, a berbere e as comunidades muçulmanas e judaicas expulsas da Península Ibérica fez florescer aqui uma cidade de enorme riqueza cultural. O mais curioso? Essa história continua bem visível nas ruas e nos monumentos, apesar de Tlemcen continuar (ainda) praticamente desconhecida fora da Argélia.
O coração espiritual de Tlemcen
Há um homem que morreu a caminho de Tlemcen e que nunca chegou. Era um místico sufi andaluz chamado Abu Madyan, nascido perto de Sevilha em 1115, formado em Fez, discípulo em Meca, professor em Bejaia, viajante por Bagdad, Sevilha e Córdoba. Em 1197, o sultão almoada de Marrakesh convocou-o à sua presença. Abu Madyan fez a viagem. Quando chegou à entrada de Tlemcen, parou diante do ribat de El-Eubbad e disse: “Este é um bom lugar para dormir em paz.” E adormeceu para sempre.
Conta a tradição que não foi uma metáfora. Morreu ali mesmo, à entrada da cidade, antes de cumprir a convocatória do sultão. E é aqui, neste sítio onde não chegou a entrar, que Tlemcen construiu o seu coração espiritual.
O complexo de Sidi Boumedienne fica a dois quilómetros do centro, subindo pela encosta, e é um conjunto de mesquita, mausoléu, madrassa e hammam construído em 1339 pelos Merínidas em honra do místico que morreu à sua entrada cento e quarenta anos antes. A porta monumental de sete metros, em cedro coberto de bronze com pregos decorados, abre para um pátio com fonte central e uma sala de oração.
No entanto, é o que fica abaixo do nível do chão que mais me impactou. Desci as escadas à esquerda da entrada numa passagem estreita que leva ao túmulo de Sidi Boumedienne. Havia mulheres a rezar. Não sei quantas. As mulheres rezavam com uma concentração que tornava a nossa presença irrelevante, não por hostilidade mas por plenitude: havia algo a acontecer ali que não precisava de audiência.
Viemos com explicações de quem foi Abu Madyan, o que significa a peregrinação ao seu túmulo, a crença na sua capacidade de interceder pelos vivos. Percebo as palavras, mas também acredito que há sítios que só se entendem por dentro e dos quais trazemos apenas uma memória.
A madrassa ao lado do complexo foi fundada oito anos depois da mesquita. Depois de alguma pesquisa online, descobri que talvez Ibn Khaldun tenha leccionado aqui, embora as fontes históricas não sejam conclusivas. Este é um historiador e filósofo do século XIV que é considerado o pai da sociologia moderna, que formulou uma teoria da história e das civilizações que antecipou em séculos o que o Ocidente classificaria como ciência social.
O Túmulo de Sidi Boumedienne, o grande místico sufi do século XII, cuja influência se estendeu por todo o Magrebe, tem uma quietude profunda. É um dos sítios de peregrinação mais importantes da Argélia, e ao mesmo tempo um dos mais serenos que visitei em toda a viagem. Para mim, foi o ponto alto da visita.
O minarete no meio do campo
A alguns quilómetros do centro histórico de Tlemcen estão as ruínas de Mansourah, e é aqui que a Argélia me dá mais um momento inesperado e difícil de esquecer de toda a semana.
Mansourah foi fundada em 1299 pelos Merínidas de Marrocos como cidade de cerco a Tlemcen. Não tinham exército suficiente para tomar a cidade de assalto, então fizeram o que apenas impérios com paciência conseguem: construíram uma cidade à volta dela. O exército merínida cercou a cidade durante oito anos, construiu a sua própria capital provisória à volta — com mesquita, palácio, mercado — e no final retirou-se sem a conquistar. Mansourah foi abandonada. Ficou a desaparecer lentamente durante séculos, até que hoje só resta a muralha em ruínas e, no meio de um campo aberto, um minarete.
O minarete de Mansourah tem 38 metros. Tem a mesma altura, as mesmas proporções e a mesma decoração em arabescos de pedra do minarete da Koutoubia de Marrakesh. A diferença é que o da Koutoubia está rodeado de jardins iluminados, tem filas de turistas ao pôr do sol e aparece em todas as listas de “o que ver em Marrakesh”. O de Mansourah tem um campo de erva seca à volta, silêncio, e quando lá estive, apenas o nosso grupo.
Queria aqui dizer que tive a oportunidade de falar com o responsável da preservação cultural da cidade e dizer que estão a fazer um trabalho incrível. Tivémos uma conversa super interessante sobre o papel das mulheres naquela altura e sobre como na prática somos todos iguais, independentemente da nossa religião e que a paz entre as diferentes comunidades é possível se quisermos. O meu francês foi desafiado toda a viagem e mais uns dias na Argélia e já estaria bem mais fluente.
Escrevo principalmente porque acho que um monumento desta importância histórica e desta beleza não pode ser completamente desconhecido fora das fronteiras do país!
O Palácio El Mechouar
No coração de Tlemcen, o Palácio El Mechouar tem a sua própria estratigrafia de impérios. El Mechouar significa literalmente “ala do conselho” e era o lugar onde o rei se reunia com os seus ministros. Foi construído em 1248 por Yaghmoracen Ibn Zian, o fundador da dinastia Zianida, que fez de Tlemcen a capital do Magrebe central.
Durante três séculos, o palácio foi o centro político e cerimonial de um estado berbere que resistiu a invasões merínidas, otomanas e espanholas com uma tenacidade que a sua arquitectura ainda reflecte: muralhas de terra que foram sendo reconstruídas em pedra, o único dos quatro palácios originais que sobreviveu. Foi-nos explicado que as várias fontes espalhadas pelo palácio tinham o objetivo de abafar o som para que não fosse perceptível as decisões que ali se tomavam.
O que se passou dentro destas muralhas resume, de certa forma, a história do Magrebe. Segundo a minha pesquisa online e algumas coisas que aprendi com o nosso guia, em 1339, o sultão merínida Abu al-Hassan assinou aqui uma aliança com o visconde de Narbonne, embaixador do rei de Maiorca. A diplomacia medieval a funcionar entre um sultanato islâmico berbere e uma corte cristã catalã, com Tlemcen como ponto de encontro. Em 1516, o corsário otomano Aruj Barbarossa tomou a cidadela a pedido dos habitantes, que queriam libertar-se do seu próprio rei. Em 1837, o emir Abdelkader, o primeiro resistente à ocupação francesa, venerado como herói nacional, ocupou o Mechouar na sequência do Tratado de Tafna. Em 1842, o exército francês retomou-o e converteu-o em caserna. Depois da independência, tornou-se escola de cadetes militares, onde estudou, entre outros, Mohammed Moulessehoul, que o mundo conhece pelo pseudónimo de Yasmina Khadra, o escritor argelino mais traduzido internacionalmente.
O palácio foi devolvido à cidade em 1986. Hoje pode visitar-se. Os jardins com as suas fontes e os seus zelliges, os arcos, as muralhas que viram tudo isto estão lá, num silêncio que é o oposto do esquecimento.
A vista do Plateau Lella Setti
O dia em Tlemcen fecha no Plateau Lella Setti, um miradouro natural no alto da serra que domina a cidade. Ao fim da tarde, com a luz a baixar e a cidade a estender-se abaixo em tons de ocre e branco, é impossível não parar e perceber a dimensão do que se passou aqui durante séculos: esta cidade foi disputada, sitiada, reconquistada, transformada por impérios e dinastias que se sucederam ao longo de mil anos, e ainda está lá, habitada, viva, e extraordinária.
razões para voltar
Fiquei com pena de não ter tido mais tempo para caminhar por Tlemcen. Não é uma cidade esmagadora. É uma cidade que parece ser interessante para caminhar, e ser simples de percorrer a pé de um sítio para o outro, com a sensação constante de que há mais uma esquina a dobrar, mais um recanto a descobrir.
Infelizmente, durante a minha visita não tive oportunidade de entrar na Grande Mesquita nem nas antigas madrassas, mas foram dois dos locais de que mais nos falaram. A Grande Mesquita, fundada em 1082 pelo sultão almorávida Yusuf ibn Tashfin, é considerada uma das joias da arquitetura islâmica do Magrebe, conhecida pelo seu pátio de arcadas e pelos detalhes que sobreviveram ao longo de quase mil anos.
O mesmo acontece com as madrassas do século XIV, onde os painéis exibem padrões geométricos que, segundo nos explicaram, nunca se repetem exatamente. Na tradição islâmica, só a perfeição divina pode ser perfeita, e essa ideia foi incorporada pelos artesãos em cada detalhe da decoração.
São dois dos sítios que me deixaram com vontade de voltar a Tlemcen. Há cidades que nos conquistam pelo que conseguimos ver, e outras pelo que fica por descobrir. Tlemcen conseguiu fazer as duas coisas.
merece uma visita
As Cascatas de El Ourit, a uma curta distância do centro, podem ser um ponto de interesse se decidirem conhecer as Grutas de Beni Add, em Ain Fezza. Estas grutas, abrem-se num sistema de salas subterrâneas com formações de estalactites trabalhadas ao longo de milénios. Um contraponto geológico aos séculos humanos que se acumulam na superfície.
Queria também mencionar que por ter ido a convite do Ministério do Turismo e Artesanato da Argélia, através da Embaixada da Argélia em Portugal, tive também a oportunidade de visitar a Wilaya de Tlemcen (o equivalente à nossa câmara municipal) que merece uma visita nem que seja por fora.


